terça-feira, 20 de março de 2012

Conversas com historiadores: Denílson Botelho




Em sua primeira postagem, o blog do VI Simpósio Nacional de História Cultural, que acontecerá entre 24 e 28 de julho, na cidade de Teresina (PI), inicia uma série de diálogos com historiadores que participarão como simposistas no referido encontro. A ideia é uma aproximação dos profissionais da História, bem como das temáticas que serão englobadas pelos simpósios temáticos por eles coordenados, com os participantes do eventos e a comunidade acadêmica em geral.

Em nossa primeira entrevista, Denílson Botelho, doutor em História Social pela UNICAMP e professor do Programa de Pós-Graduação em História do Brasil da Universidade Federal do Piauí nos fala sobre sua trajetória enquanto pesquisador, e de como essa trajetória se relaciona com os trabalhos desenvolvidos atualmente, bem como com a temática abordada pelo simpósio que coordenará no evento: "História, Mídia e Literatura", em parceria com a Profª Drª Maria de Fátima Fontes Piazza, da UFSC.

1. Professor(a), você pode nos dizer o que o despertou para o estudo do
passado, e como essa trajetória lhe levou a pesquisar sua área de
interesse proposta pelo seu simpósio temático?


Cursei o ensino médio e ingressei no Curso de História da Universidade Federal Fluminense na década de 1980. O que vivi naquele período foi determinante nas minhas escolhas acadêmicas. Eu estudei numa escola federal nos três últimos anos da ditadura militar (1983-1985) e junto com outros alunos resolvemos criar um jornal de estudantes que chamava-se Caminhando. Na época, o Diretor da escola chamou esses alunos e disse que não podia ter jornal ou, se insistíssemos, o jornal só seria publicado depois de ser censurado pessoalmente por ele. Aquilo foi um choque para todos nós e provocou um profundo amadurecimento em todos. Despertou nosso interesse pela política e pela história, sobretudo porque estávamos em 1984 e a Campanha pelas “Diretas Já” ganhava as ruas. Então ali eu começava a querer compreender como a nossa história tinha nos levado até os desafios que enfrentávamos naquele momento.

Logo em seguida comecei a cursar História e um professor me aceitou como auxiliar nas suas atividades de pesquisa para a elaboração de uma Dissertação de Mestrado sobre a Primeira República. A influência desse professor, Marcelo Badaró Mattos - hoje Titular em História do Brasil na UFF - foi decisiva, sobretudo pelo fato dele ter me presenteado com o livro “Literatura como missão”, de Nicolau Sevcenko. O livro “fez minha cabeça” e me despertou para a necessidade de compreender e pesquisar a história dessa nossa república, que é uma obra inacabada até hoje. E também entrou de uma vez por todas no centro das minhas preocupações o papel dos intelectuais, escritores, literatos e especialmente Lima Barreto. Eu diria que Lima Barreto e sua obra tornaram-se para mim uma espécie de guia em busca da compreensão de nossa história republicana.

O simpósio temático reflete essas preocupações que eu e a Profª Fátima Piazza (UFSC) compartilhamos em face de tudo aquilo que se entrecruza nos universos da história, mídia (imprensa) e literatura. O que nos interessa é destacar o papel desempenhado pelos intelectuais (escritores, poetas, cronistas, contistas, artistas gráficos e plásticos) na formulação de projetos políticos, editoriais e estéticos nos jornais e revistas (incluindo, os periódicos culturais) publicados no Brasil. Entendemos que é preciso avaliar a dimensão da contribuição da literatura para a legitimação e difusão da imprensa e vice-versa. Discutir qual tem sido o lugar dos intelectuais nesse cenário e em que medida eles deram legitimidade a projetos editoriais e políticos. Daí a necessidade de investigar experiências de envolvimento entre imprensa e literatura, visto que podem se mostrar reveladoras de um determinado tempo histórico.

2. Como você vê o contexto de pesquisas atuais (especialmente os projetos de iniciação científica e os desenvolvidos no âmbito dos programas de pós-graduação) na temática com a qual trabalha, e na qual está centrada seu simpósio temático?

Eu entendo que esse é um campo de pesquisa completamente consolidado no Brasil. Quando Sevcenko defendeu a sua tese de doutorado, seu trabalho era pioneiro, em certa medida precursor e por isso mesmo polêmico. Hoje a gente tem uma tradição e toda uma gama de trabalhos de pesquisas já desenvolvidos sobre literatura, que é objeto de abordagem não só da história cultural, mas também de outras correntes. Aliás, eu mesmo me identifico muito mais com a história social da cultura, porque esta foi a minha formação na Unicamp, sob a orientação de Sidney Chalhoub. Então, dos anos 80 do século passado para cá, abriram-se inúmeras possibilidades de pesquisa nesse campo em que o Simpósio Temático de História, Mídia e Literatura se insere.

Um comentário:

  1. Parabéns ao Prof. Denilson Botelho e aos idealizadores do Blog. Essas iniciativas contribuirão para ampliar o conhecimento sobre a profissão do historiador e suas produções.

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